Aviões e linhas tracejadas

a fronteira do mundo está na régua dos homens
nos estilhaços e efeitos morais
a fronteira do mundo dividiu meu coração
dizimou centenas de pares de olhos
e a capacidade de chorar.

esses dias aprendi que no tupi
eíra é mel e também abelha.
o sentido da língua é o sentido do mundo.

leio os diários de colombo
colombo não tem medo de nada,
a conquista não tem fronteiras.
viva o descobrimento.
o mundo não termina em abismo
mas às vezes sim,
o mundo de cá
ilegal, deportado, extraditado
exilado na ausência do lugar
o mundo político das vidas políticas.

a fronteira do mundo assina contratos
derruba governantes
rouba petróleo e outras riquezas
assalta as flores de manga
e os cílios da sorte que caem dos olhos,
aquela esperança toda.

o homem da luz azul

Em 24 de janeiro deste ano acordei na madrugada e vi, parado à minha frente, me observando, o homem da luz azul. Desconheço o tipo, mas sei que era homem e carregava um objeto tão luminoso que azulava as paredes do quarto. O medo somado ao sono me induziu a virar de costas e apertar os olhos até dormir. Lembro que ainda abri os olhos minutos depois e a parede ainda refletia a luz azul da visita. Dormi até o dia seguinte. A certeza: falha, manca, violável. A certeza: volátil, narrativa, inventada. Existe algo de mistério rondando o frio das madrugadas. Nunca mais tornei a vê-lo, mas sigo apertando os olhos quando, no escuro, ouço o som besta dos objetos que caem por motivo algum além do tempo, que passa e estala.

astronauta

no espaço não tem
som
ou não como são paulo.
hoje o vizinho deu um grito
contra o som de uma peça de teatro
mulheres negras cantando
plateia e um punhado de lágrimas
a esposa respondeu tenha respeito
o homem negou
o respeito e gritou de novo.
parecia ensaiado,
tantas as dores,
tão lúcido e cruel o espelho do mundo.

no espaço não tem
vento. tem luzes que são sínteses
das vidas das pedras e fogos
das naves da madrugada.

mal existe tempo no espaço.
neste instante, porém,
são seis astronautas
no espaço vivendo mil vidas.

um pouco de inflamação

passar rua na avenida é algo como
escrever poemas
(adoro exageros)
porque é a pessoa em exposição
porque é sua linguagem e portanto
seus lábios, sua insônia
seu medo da morte
à mostra para interpretações
diversas, moralistas, dispáticas,

claustrofóbicas,

abraços e beijos não solicitados,
supostos sinônimos,
olhos arregalados;
porque são os músculos distendidos
e é dura, esfolada,
a carne do corpo que narra.

borboletas

já não há mais segundas pessoas
nos versos que me proponho.
amores vêm e vão,
a poesia deve ficar:

sem o incômodo das memórias
sem os apertos de quem não vale
sem o ridículo dos por-dos-sóis compartilhados
(vários sóis).

observo as borboletas
que eventualmente crescem em meu estômago
e já são elas, sozinhas, o fenômeno mais lindo.
às vezes nem há ninguém na praça,
elas me alcançam
em revoada.